Na minha imaginação, Maria Rita estava ali, bem em frente, cantando só para mim, sem mais ninguém na platéia do Teatro Franco Zampari. E de uma certa forma foi assim mesmo.
Sou fã de carteirinha da cantora e graças a uma gentileza de Lilian Aidar, produtora executiva do Ensaio, acompanhei a gravação do programa que a TV Cultura exibe hoje às onze da noite. Éramos só nós: ela, a banda, a produção, os técnicos – todos trabalhando – e eu, me deliciando.
Foi um prazer em dose dupla, pois também pude ver como atua Fernando Faro, 82 anos, endeusado no mundo da música popular brasileira pelos shows e musicais de TVs que cria e dirige há de mais de meio século.
Todos na TV Cultura o admiram e dedicam um carinho especial ao “Baixo”, apelido que ganhou por causa da estatura. Sempre que eu o cumprimento, beijo sua mão direita, como que pedindo a benção desse sergipano que nos tempos em que morou em Poá chegou a jogar pelo time local contra o União F.C. De brincadeira, ele retribui o gesto.

Foi “Baixo” quem bolou no início dos anos 1970 o consagrado formato de Ensaio. Todo o foco é dado ao artista e sua obra. Os recursos cênicos são os mais simples: um fundo escuro, reflexos azuis de quatro spots e sombras nos rostos.
Com um curto vestido vermelho, justo na justa medida, decote apropriado, não posso negar que Maria Rita estava sensualíssima.
No início, sentada na pontinha de numa banqueta, ela ajeita os cabelos e canta à capela, compenetrada, alguns versos de “Samba Meu”, de Rodrigo Maranhão, que “celebra tudo o que é bonito”. E emenda com uma voz gostosa e madura “O homem falou”, de Gonzaguinha, a partir dos acordes de um cavaquinho, seguido de um pandeiro, um tamborim


Sorriso brincalhão, suave bamboleio, ela faz a gente acreditar que o convite para a festa que vai ‘começar agora” é real. E assim foi o show todo.
No Ensaio, as entrevistas intermeiam as interpretações, mas a voz do entrevistador não vai ao ar, ficando para telespectador a dedução do que foi perguntado. “Baixo”, atrás das câmeras, quase cochicha, e Maria Rita se dedica a escutar seu murmúrio com a atenção de quem ouve o bater de asas de um beija-flor em vôo.
Com gosto, ela fala de seu encaminhamento para o samba, da estima pelo trabalho de Arlindo Cruz, dos compositores da nova geração e de algumas lembranças da infância. Como aquele afiador de piano cego que reconhecia sua voz a distância. Ou a professora do coral que nunca a chamou para um solo.
A mudança para os Estados Unidos, aos 16 anos, foi traumática, mas ao mesmo tempo possibilitou sua “formação como indivíduo”, libertando-a da carga de filha de pais famosos, Elis Regina e César Camargo Mariano. De volta para o Brasil, a lapidação da identidade se completou ao gravar o primeiro disco e sentir que “saía um peso das minhas costas”.
Maria Rita diz ser grata pelo reconhecimento, mas não se deslumbra com o sucesso. Acha essa palavra egocêntrica demais. “Sou apenas um canal de algum tipo de comunicação com algum lugar dentro de um ser humano”.
Hoje, diante da telinha, meu coração estará em comunicação com ela. Agora com a patroa ao lado.
Recordarei o momento em que, no dia da gravação, ela me ofereceu o rosto para um beijo.
E dedicarei um olhar especial ao jeito como Maria Rita faz dos movimentos de seus braços e mãos uma extensão orgânica de sua voz..
É ela mesma, mas também é Elis.
(Publicado em “O Diário de Mogi”, de Mogi das Cruzes, de 31/03/10)
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