No jargão jornalístico, nariz-de-cera é o texto que começa com fatos tidos como secundários para depois chegar ao que realmente interessa. Se você não estiver disposto a passar por isto, pule os próximos três parágrafos. Caso contrário, sigamos com um nariz-de-cera que contextualiza o escrito de hoje.
Não fosse jornalista, eu seria um urbanista. O gosto pelos temas que envolvem a maneira como o homem cria, organiza e também destrói comunidades surgiu em paralelo ao início de minha carreira de repórter em Mogi.
No final dos anos 1960, passei em um concurso para fiscal de Obras da Prefeitura, cargo que ocupei por alguns meses até ser designado como assessor de imprensa. Na ocasião, por força de ambas as funções, trabalhei muito próximo ao arquiteto Frederico René de Jaegher.
Hoje merecidamente nome de ruas em Mogi e na Capital, Jaegher foi quem implantou o Plano Diretor em nossa cidade. A experiência ganha nas reportagens que fiz com ele, ajudariam muito minha carreira de “repórter de cidade” em São Paulo.
Feito o preâmbulo, informo que no final de março o programa Habitat da ONU irá promover, no Rio de Janeiro, mais um Fórum Urbano Mundial. O objetivo é incentivar o diálogo entre especialistas, autoridades e o público em geral sobre questões urbanas que são comuns em todos os países. O tema do encontro é “Unir o Urbano Dividido”, vale dizer, diminuir as desigualdades sociais das cidades.

Tais preocupações já estavam em pauta em 1976, quando o programa Habitat foi criado na 1ª. Conferência da ONU sobre Assentamentos Humanos realizada na esplendorosa Vancouver, no Canadá. Estive lá, como enviado especial do Jornal da Tarde. Três mulheres se destacaram no encontro e com elas aprendi que urbanista não é salva-vida de cidade. Sozinho, ele também se afoga.
A solução dos problemas urbanos não depende das idéias dos técnicos e das novas tecnologias, mas de decisões políticas e da participação social para encará-los. A proclamação taxativa foi feita pela economista inglesa Bárbara Ward, uma das pioneiras na difusão do conceito de desenvolvimento sustentável.

Eu imaginei que aquilo causaria um certo mal estar entre os urbanistas brasileiros presentes na Conferência, mas aconteceu o oposto. Estávamos sob a ditadura militar e eles concordavam que o planejamento urbano de gabinete não passa de “papel pintado” (para parafrasear aqui o ex-prefeito Valdemar Costa Filho, ironicamente quem criara o Escritório do Plano Diretor).
Sem desvestir seu carisma, Madre Teresa de Calcutá foi pragmática: mais do que planejamento para o futuro, o que os cidadãos querem são decisões imediatas para solucionar problemas imediatos de hospitais, trabalho, escolas e habitação.

A antropóloga norte-americana Margareth Mead, por sua vez, criticou as mudanças que não respeitam os padrões culturais existentes, de forma a preservar os valores humanos das cidades. “Qual será o custo dessas ações em termos do espírito humano ? Quão rapidamente devemos atuar ? Quão lentamente ?”.

Margareth morreria dois anos depois, Bárbara em 1981 e Madre Teresa em 1997, mas suas palavras continuam vivas.
Encerro por aqui, com uma técnica jornalística tão fora de moda como o nariz-de-cera: continua na próxima edição.
(Publicado em “O Diário de Mogi”, de Mogi das Cruzes (SP), 17/03/10)
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