Cidades – O Mundo que Construímos

Merece reflexões a notícia de que Goiânia, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília e Curitiba estão entre as 20 cidades mais desiguais do mundo. A revelação foi feita no Fórum Urbano Mundial que o programa UN-Habitat, da ONU, promove no Rio.  

A primeira reação é de surpresa, pois três delas – a capital de Goiás, BH e o DF – são cidades que nasceram do zero, planejadas para garantir qualidade de vida acima da média brasileira. E Curitiba, exemplo de inovações urbanísticas nas últimas décadas ?  

Brasília, prestes a completar 50 anos, foi concebida por Lúcio Costa e desenhada por Oscar Niemeyer para ser um cartão postal e o símbolo de um planejamento urbano moderno e racional.  

 O que deu errado ? O assunto é tratado no documentário Cidades – O Mundo que Construimos, que dirigi, a ser exibido no próximo domingo, dia 28, às dez da noite, na TV Cultura. 

Ocorre que a cidade foi “projetada”, mas não “planejada”. Ela foi imaginada “fechada”, com 500 mil habitantes. Hoje a área metropolitana do DF tem 2,6 milhões, com um crescimento populacional de 2,82%, contra a média nacional é de 1,05%.

 JK pensava que a mão-de-obra  construiria a cidade e iria embora. Ela não só ficou, como foi incentivada pelos governantes a trazer seus familiares, iludidos com o sonho de desfrutar do paraíso dos políticos. Hoje, os maiores problemas do DF, se incluídas as Cidades-Satélites, são saúde pública e emprego. No Plano Piloto, especificamente, segurança pública e trânsito.  

O avanço da migração para o Centro-Oeste também explicaria o abismo entre ricos e pobres verificado em Goiânia,  planejada nos anos 1930 e até agora mais conhecida por suas ruas arborizadas e floridas.

A capital de Goiás, com 1,3 milhões de habitantes, é a 13ª. mais populosa cidade do País. Belo Horizonte tem  quase o dobro de moradores e está em sexto lugar. Primeira capital moderna brasileira projetada, no final do século XIX, ela continua se modernizando: esta semana a Praça da Liberdade, que desde criação da cidade foi o centro do poder, passou a ser um centro de atividades culturais. Ao mesmo tempo, BH é desafiada por uma “ocupação rururbana” promovida pelo MST. No ranking populacional, um posto  à sua frente, aparece Fortaleza, que tem 2,5 milhões, sendo 15% favelados.

Nos anos 1970, a capital do Paraná, sendo prefeito o arquiteto Jaime Lerner,  ganhou fama mundial por sua reforma urbana. Um dos destaques foi um eficiente  “sistema de transporte de superfície”,  de custo mais acessível e rápida construção. Curitiba ainda foi a primeira a ter ruas de pedestres, “os calçadões” que tornam mais humanos os centros urbanos.

Hoje com 1,8 milhões de residentes, a cidade constata que sua reorganização priorizou os investimentos públicos e privados em eixos já valorizados, deixando desassistida  a população carente dos bairros ao redor. Não a toa, 60% dos homicídios da área metropolitana concentram-se nesses núcleos.

Parece claro que o problema das cidades vai além dos planos urbanísticos. É preciso uma política nacional de desenvolvimento que cesse a  concentração econômica e populacional em grandes pólos,  articulando uma rede de cidades compactas e sustentáveis.     Mogi pode ser uma delas.

Soam oportunos os versos de Caetano Veloso em “Aboio”: “Urbe imensa,/Pensa o que é e será e foi (…) Pensa-te”.

 (Publicado em  “O Diário de Mogi”, de Mogi das Cruzes, de 24/03/10, com o título Habitat -II)

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