O Brasil perdeu, há poucos dias, o empresário e bibliófilo José Mindlin. Não posso dizer que fui de seu círculo íntimo, mas tive a satisfação de desfrutar de seu convívio em inúmeras ocasiões.
Numa delas, visitei sua blblioteca de 40 mil volumes, que ele me apresentou seção por seção, com a maior deferência. Em meus tempos no Grupo Estado, tivemos agradáveis conversas sobre o início de sua vida profissional como redator do Estadão.

Mindlin era um dos conselheiros da empresa e nos intervalos das reuniões nos deliciava contando episódios da época em que, com 15 anos de idade, começou sua vida profissional como redator do Estadão. Um deles, a maneira como ajudou a enganar a censura durante a Revolução de 1930, transmitindo instruções para a sucursal do Rio em inglês, confundindo quem estava na escuta telefônica.
Certa vez ele me mostrou uma preciosidade: a carteirinha de funcionário do jornal. Nada mais natural para um colecionador de livros colecionar também documentos pessoais que – mais do que simples capinhas de couro, papel e foto – são invólucros de memórias.
Outro tema que nos aproximou foi o design, uma faceta de sua biografia pouco lembrada. Nos anos 1980, editei uma revista sobre design, numa época em que isto ainda era algo exótico no Brasil. Imagine, então, o que era três, quatro décadas antes alguém defender importância do Brasil criar produtos com características próprias e, ao mesmo tempo, funcionais. Pois esse alguém existia e se chamava José Mindlin.
“Sou um agnóstico que acredita na catequese. E esse tipo de pregação exige perseverança”, dizia. Na Fiesp, Mindlin criou o Núcleo de Desenho Industrial (NDI). Como Secretário da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo nos anos 1970, ele lançou o Prêmio da Boa Forma. Em 1984, sob sua presidência de Mindlin, a Bienal promoveu Tradição & Ruptura, a primeira exposição a dedicar um espaço para o design brasileiro.
Ele tinha particular interesse pelo desenho gráfico e pela impressão em geral, algo natural pela quem a convivência com os livros era muito agradável e quase que independente da leitura. Um livro bom se conhece, segundo ele, não só pelo conteúdo, mas também pelo aspecto estético da obra, a tipologia legível, a facilidade com que ele se abre e pode ser folheado, o papel utilizado e outros aspectos relacionados ao design.
Numa de nossas últimas conversas, Mindlin afirmou estar satisfeito com os resultados de sua “catequização” , tamanhos tem sido os avanços do design brasileiro em algumas áreas como a aviação, o mobiliário, a cerâmica, a arte gráfica e o cristal. “E hoje também se produz no Brasil livros excepcionais”. Existe ainda o problema do preço, é verdade, “mas isso é coisa de tempo”,. Eu não poderia esperar outra opinião de quem achava que “o importante é sonhar, pois assim se constrói a realidade”.
(Publicado em “O Diário de Mogi”, de Mogi das Cruzes (SP), 10/03/2010)
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