Professor Witter

O celular tocou, era o Chico Ornellas, eu estava em reunião, prometi retornar. Não deu tempo. Ele voltou a chamar, indo direto ao ponto: “São 3300 toques, com espaços…”. O que ?  Foi ai que Darwin, ao fundo, completou: “… Toda semana, para entregar até segunda”. Entendi.  Era um convite, que aceitei com orgulho, para escrever às quartas aqui.  

Só depois um amigo me chamou a  atenção ao fato de que eu sucedera ao professor Witter. O que teria acontecido ?  Fiquei cabreiro, procurei saber o que se passara. Não bastasse a palavra do jornal,  fui atrás da confirmação do próprio Witter. A decisão fora unilateral da parte dele, nada havendo a abalar na relação mútua.  

O sorriso com dentes cerrados de José Sebastião Witter reflete uma personalidade rigorosa nas mínimas coisas. Que o digam os donos do Shibatinha da Ricardo Vilela, onde ele apalpa bem as frutas antes de escolher quais comprar.

A vivacidade dos olhos quando ele expõe suas idéias revelam um entusiasta educador e um agitador cultural consciente de seu papel na sociedade. Que testemunhem  seus ex-alunos ou colegas  docentes do Washington Luis, por ele dirigido em plena ditadura militar. Em teoria, por seu pulso firme,  não haveria ninguém melhor para atuar como uma espécie de interventor da escola. Na prática, sob seu comando o Instituto viveu dias de liberdade e foi um marcante polo de debates.

Witter escreveu três livros sobre o futebol, outra de suas paixões

“Ele jamais deixou pendência por onde tenha passado”, lembra Chico Ornellas. Diretor da Faculdade de Filosofia da USP, Witter promoveu a recuperação do prédio que estava absolutamente deteriorado. Diretor do Instituto de Estudos Brasileiros, promoveu sua instalação fisica e o organizou como centro de pesquisa. Seguindo os conselhos de Sérgio Buarque de Holanda para que estudasse o povo brasileiro, optou pelo tema do futebol, tornando-se o primeiro acadêmico a pesquisar sobre o assunto.

Diretor do Arquivo do Estado, promoveu sua transferência para as atuais instalações e teve participação indispensável na preservação e recuperação dos arquivos da polícia política. E tem mais. Diretor do Museu Paulista, recuperou o acervo e restaurou por completo o prédio que estava em petição de miséria, numa parceria público-privada pioneira com a Fiesp.                                                                            

Homenageado com o título de “Professor Emérito” da Faculdade de Filosofia da USP, Witter retornou a Mogi, cidade onde chegara pela primeira vez com 13 anos, deixando sua terra natal, Fernando Prestes. Darwin recorda: “Ele fez um belo trabalho, ao lado de dona Geraldina, na UMC, e atuou também ao lado de Armando Sérgio, na Comunicação, trazendo para Mogi gente de peso, que ele conhecia de São Paulo e outros cantos, para palestras e debates com estudantes”. Mas isto foi abruptamente interrompido, assim como o trabalho de organização do arquivo da Camara.

No Diário, além da coluna semanal, o professor participou de projetos especiais, comentou as últimas Copas, escreveu resenha de livros  e editou o livro que marcou os 50 anos de fundação do jornal.

O professor Witter ainda pode (e certamente quer) contribuir mais com Mogi.  Basta sensibilidade do mundo acadêmico ou dos poderes públicos, dando-lhe condições para discutir e executar seus projetos.  Tempo, agora, o professor tem, pois são 3300 caracteres a menos para escrever toda semana. Mas, se for seu desejo, eu lhe cedo o espaço. Não haveria melhor presente para os leitores.     

 (Publicado em “O Diário de Mogi”, de Mogi das Cruzes, em 07/04/10)

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