>>> Texto de 2010, complementado por fotos em 2024
“Júlio, parabéns…” Era minha mãe ao telefone, no início da tarde de 7 de abril. “Obrigado, mas por que mesmo ?”. Ela: “Hoje é o Dia do Jornalista, vai me dizer que você não sabe disso…”.

Ela também tentou falar, sem êxito, com o Chico Ornellas. Assim é dona Geralda, apegada à família, atenciosa com todos os amigos, mas pouco receptiva a paparicações espontâneas . Ultimamente a saúde debilitada tem ajudado nas desculpas. O Dia das Mães é diferente, ela já incorporou em sua rotina.
Para me agradar, agora minha mãe assiste os jogos do Corinthians, em companhia de minha irmã Lúcia Helena, comendo pipoca, de olho o tempo todo no Fenômeno. “O Ronaldo parece uma bolinha…”, comentou domingo, decepcionada. Quando estou junto, ela me libera para gritar uns palavrões e se diverte com a cena.




Em outubro dona Geralda completará, Deus queira, 88 anos. Um bom bocado deles vivido na mesma casa, no centro, sua zona de conforto e reflexo de seu conversadorismo e simplicidade. O mobiliário comprova.
No quarto da frente fica o piano Schwartzmann em estado de novo, o teclado protegido pelo paninho original, vermelho com três bailarinhas em cada ponta. Há mais de 40 anos o piano não ecoa mais os tangos e as valsinhas que tanto agradavam as visitas. Virou uma caixinha de música fechada.
Na cozinha tem uma daquelas mesas dos tempos da Móveis Paschoal Bianco da Rangel Pestana, que há muito não se fabrica mais, com duas tábuas nas laterais, para ampliar o tampo quando tem mais gente para comer. Com oito décadas não sabe o que é um cupim. Fazem companhia à mesa o fogão Cosmopolita de esmalte branco, o relógio-de-cuco que ela ganhou de meu tio Rubens quando se casou em 1947 e a geladeira Brastemp Imperador que nunca precisou de reparos.
Suas lembranças têm mais momentos de superações do que de facilidades. Seu pai morreu um mês antes dela nascer. A mãe faleceu quando ela tinha cerca de um ano, tendo deixado o irmão Júlio como tutor da menina. Ele virou, então, seu “padrinho”, e para mim o “avô” de quem herdei o nome. A “madrinha” Cecília (minha “avó”) contribuiu muito para sua personalidade fechada e para o trabalho caseiro incessante. Dona Geralda não sossega.

Quando meu pai José (falecido em 2007) tinha uma camisaria na Dr. Deodato, ela se desdobrava ajudando no balcão e nas compras. Para completar o ganho da casa fazia rosas, crisântemos, hortências e flores de pêssego de pano para enfeites de lapela, ornamentos de casa, buquês de noivas e a bandeira do Divino.

Em nossa infância, ela gostava de ver os três filhos homens – José Carlos (já falecido), eu e Valter Luiz – vestidos iguais, destacando-se as meias de algodão brancas limpíssimas. Algo divertido (para nós) era o jeito como ela e meu pai se viravam para colocar os filhos no Expressinho para Jacareí, na época da Maria Fumaça: entravamos pelas janelas, com a ajuda dos passageiros embarcados.


Para esta quarta, dia decisivo para a sorte do Corinthians na Libertadores, ela me recomenda prometer três pulinhos para São Longuinho. “Mas tem que cumprir, hein ?” – alerta com a credencial de quem já confeccionou três “camisolinhas” para o santo da Freguesia da Escada, quando a imagem tinha só a parte da cintura para cima. “Hoje ele tem o corpo inteiro, o povo está certo em chiar”, diz ela, sempre atualizada, mesmo sem sair muito da toca.
(Publicado em “O Diário de Mogi”, de Mogi das Cruzes, de 05/05/10)
Crédito: algumas fotos são de álbum da família. Agradeço minha irmã Lúcia Helena por conservá-las e compartilhar.
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