>>> Texto de 2011, complementado por fotos e vídeos em 2024
Meu pai, José Moreno Rueda, comerciante de Mogi das Cruzes, falecido em 2007, sonhava realizar duas coisas ao se aposentar: construir uma casinha em um terreno atrás do Sesc de Bertioga e rever sua Espanha, de onde saira menino. Em 1996, ele vendeu o terreno e, com a grana, fomos juntos visitar Madri e Andaluzia.

“Não quero me emocionar, senão eu tenho um troço”, ele me disse quando tomamos o avião para uma longa e mágica jornada. Antes da viagem, visitamos a antiga “Hospedaria de Immigração”, no Brás, em São Paulo, hoje museu, onde um livro registra que ele dera entrada ali 71 anos antes, mais precisamente em 3 de dezembro de 1925. Tinha 12 anos de idade e acompanhava vovô José, vovó Maria e os irmãos (mais novos) Miguel, Antônio e Antônia. (No Brasil nasceria a irmã caçula, Josefa).




Saíram de Alháurin El Grande, um pueblo andaluz onde já se nasce com apelido. Como ali não há colocação suficiente para todos, seus habitantes são conhecidos como el busca vida, por terem que trabalhar em cidades vizinhas. Meu avô ousou ir mais longe, comerciar frutas na África. E caiu na armadilha de marroquinos inimigos da Espanha.
Depois de ter sido dado por morto, ele reapareceu em Alháurin aos trapos. Pouco contou do que se passou, colocando toda sua energia nos tramites para embarcar a família, semanas depois, no vapor Córdoba. Queria livrar os filhos de sofrimento igual. Parecia intuir o estouro da Guerra Civil Espanhola.


Nenhum deles voltou a rever a cidade, exceto meu pai. Por coincidência, na semana em que chegamos estava de volta à matriz a patrona Virgem de Gracia, depois de vários anos de reforma da igreja. Ouvimos uma pitoresca história sobre o paradeiro da santa durante as obras. De tempos em tempos, a imagem era hospedada numa das casas do pueblo. Calhou que quando a Virgem estava na casa de um casal de irmãos, a mulher enferma morreu. Foi difícil convencer o irmão deixar a patrona sair, ele a queria como substituta da companhia perdida. E isto acrescentou mistério ao encanto da procissão do retorno.

No alto da colina de casinhass brancas fica a igreja da Parroquia de Nuestra Sª de La Encarnación, cuja história remonta a 1485. Antes havia ali um castelo e uma mesquista.
Encontramos parentes do lado dos Morenos, de meu avô, e do lado dos Ruedas, de minha avó. Com eles aprendi a fazer paella, cuja receita aos poucos fui mudando e hoje a denomino alhaurina, por ser única. Visitarmos um moinho de trigo em funcionamento há cinco séculos, saborearmos a rica comida da marisqueria Casa Paco, vimos a Fuente Lucena e provamos os típicos bollos de aceite.

Fomos fotografados junto ao Arco del Cobertizo, do século XII, marca dos sete séculos de presença árabe na região, quando mudaram o nome do lugar do romano Lauro Nova para Alhaurin, que significaria “Jardim de Alá”.
No cartório, copiamos a página com a acta de nacimiento dele. O momento mais emocionante foi a visita à casa onde ele nasceu, com mais de 200 anos de construção. Pequenina, paredes grossas, piso ainda de pedras do tamanho de um punho fechado, como ele sempre lembrava. Punho de criança, pois eram pedras pequenas. (Em 2010, voltei a ela, com meu filho Guilherme, e a encontrei abandonada, funcionando como depósito de uma oficina de motos).
Inesquecível o sorriso e a leveza de caminhar de meu pai durante um passeio pelas ruas do casco viejo da cidade, logo após a leitura de uma reportagem do jornal “Sur” sobre seu retorno, tido como um feito histórico. Um sorriso que lembrava uma foto sua com 12 anos, prestes não apenas a buscar, mas a semear a vida – lá e cá.
Júlio Moreno
(Publicado em “O Diário de Mogi”, de Mogi das Cruzes, de 30 de março de 2011)
Sites e vídeos relacionados:
Web oficial de turismo de Andaluzia: Alháurin El Grande
Visita à casa onde nasceu meu pai na Huerta L´Arquilla del Água (em 2011, vídeo de Guilherme Outsuka)
Nessa casa de grossas paredes de pedra nasceu meu pai, José Moreno Rueda, em 1912, em Alháurin El Grande. (Vídeo de 2011 de Guilherme).
Entrevista com Manuel Moreno Jimenez, primo de meu pai
Uma conversa afetiva entre dois parentes: eu e Manuel, primo pelo lado paterno de meu pai, José Moreno Rueda – ambos alhaurinos. PS: desculpem-me o portunhol .(Em 2011, vídeo de Guilherme Outsuka)
Carmen, Ana e Ana Carmen
Conversa com Antonio Moreno Maldonado
Entrevista com nosso parente Antonio Moreno Maldonado, da Cristamor, loja especializada em decoração, de Alhaurin El Grande. (Vídeo de 2011 de Guilherme Outsuka).
A excepcional paella de Isabel Rueda Guzman
Ensinamentos de Isabel Rueda Guzman, prima de meu pai, pelo lado materno. (Vídeo de 2011 de Guilherme Outsuka).
Os bastidores da Pasteleria Guzman
Os bastidores desta confeitaria de Alhaurin el Grande, famosa pelo bolo de azeite, o doce mais típico da cidade. Entrevista com o dono Juan Antonio Guzman Rueda, filho de Pepe e Isabel, os criadores do estabelecimento. Sua mãe é prima, pelo lado materno, de meu pai José Moreno Rueda. Juan Antonio, além de grande confeiteiro, é o maior torcedor do Atlético de Madrid das redondezas. (Vídeo de 2011 de Guilherme Outsuka)
Bar Museo Costales
Visita a um bar único, um bar museu em Alháurin El Grande. Ali estão reunidos objetos das mais diferentes categorias e épocas, uma mistura ao mesmo tempo esquisita e atraente. Entrevista com seu criador, Antonio Costales. (Vídeo ode 2011 de Guilherme Outsuka).
A animada Penã do Real Madrid
Entrevista com Paco Romero Comensales (criador da fantástica Marisqueria Casa Paco), um dos aficcionados merengues que todos os dias se reunem na Penã Real Madrid, em Alháurin El Grande. (Vídeo de Guilherme Outsuka de 2011).
Bar M
Arco del Cobertizo
Um pouco da história do Arco del Cobertizo, herança do século XII de Alhaurin El Grande. O Arco dava acesso à antiga mesquita, onde hoje se localiza a igreja matriz desse pueblo andaluz. (Vídeo de 2011 de Guillerme Outsuka)
Conversa com o historiador Juan Castillo Benitez – Parte I
Conversa com o historiador Juan Castillo Benitez – Parte II
Segunda e última parte de entrevista com o historiador Juan Castillo Benitez, do pueblo andaluz de Alhaurin El Grande. (Vídeo de 2011 de Guilherme Outsuka).
Alháurin El Grande pelos olhos das crianças
Crianças de Alhaurin el Grande reunidas na Plaza Baja divertem-se contando histórias desse pueblo andaluz. Na praça fica a Paróquia Nuestra Señora de la Encarnación, padroeira da cidade. (Vídeo de 2011 de Guilherme Outsuka).
Num bar da Plaza Alta, conversa com Pedro Dias
Entrevista com Pedro Dias, num bar da Plaza Alta de Alháurin El Grande. Ele recorda histórias do lugar. (Vídeo de 2011 de Guilherme Outsuka).
Depoimentos sobre Gerard Brenan e Antonio Gala em Alháurin
Veja também:
Casa Museo Antonio Gala – La Baltasara

Antonio Gala (1930/2023) foi um dos escritores mais importantes da Espanha no século XX. Entre outros romances escreveu “O manuscrito carmesin”, o final de Boabdil, o último sultão a viver no lindo complexo do Alhambra em Granada. Ele viveu por logo tempo na casa conhecida como La Baltasara, em Alhaurín El Grande, hoje museu, e onde nasceu meu tio Miguel.
Saiba mais em:
Biografias y Vidas: Antonio Gala
Gerard Brenan em Alháurin El Grande
Documentário que conta a vida do escritor inglês Gerard Brenan em Alhaurín El Grande, elaborado na passagem dos 25 anos de seu falecimento, aos 93 anos, em 2014, pela ATV Alhaurín. Seu livro “El laberinto español” foi um dos primeiros a tratar das causas da guerra civil na Espanha. Ele igualmente viveu longos anos na cidade, para onde fez questão de voltar em 1984 após uma breve estadia na Inglaterra. O Ajuntamiento local promove desde 2004 o Premio Internacional de Relato Breve que leva seu nome e a biblioteca pública é a sede da Fundación Gerard Brenan.
Saiba mais em:
Biografias y Vidas: Gerard Brenan
Crédito: algumas fotos são de álbum da família. Agradeço minha irmã Lúcia Helena por conservá-las e compartilhar.
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