Crônica publicada em “O Diário de Mogi”, de Mogi das Cruzes, em 18 de março de 2012, atualizado em 2024
O casarão da Coronel Souza Franco, em Mogi das Cruzes, sempre despertou a curiosidade dos que circulam pela rua. Mesmo tendo abrigado por muitos anos uma pensão, são relativamente poucos os mogianos que a conheceram por dentro. Eu fui um deles, se bem que guardo vaga lembrança disso, pois era um pirralho de dois, três anos. Minha mãe Geralda, contudo, tinha muitas recordações do casarão, exaustivamente repetidas nas conversas que eu e meus irmãos Valter Luis e Lúcia Helena tivemos com ela no ano passado, antes de seu falecimento.

O Valter, por sinal, nasceu no casarão em março de 1952. Papai José comprou a pensão no final dos anos 40, com o dinheiro da venda de um bar no Brás. Meu irmão José Carlos era de colo. Depois, eles se mudaram ao repassarem o negócio para meus avós maternos, Cecília e Júlio. Não passou muito tempo, voltaram, agora comigo, recém nascido. Ficamos, provavelmente, até 1953, quando meus avós venderam a pensão para dona Lucinda.
A pensão servia almoço todos os dias, de segunda a sexta. Era, por assim dizer, o refeitório do SENAI, recebendo todos os dias 40 funcionários. Para atender a um pedido deles, nas quartas, o prato do dia era espinafre, comprava-se 20 maços para a turma. Outro grupo assíduo eram as professoras do Colégio Normal, que ficava ali pertinho. E havia ainda o dr. Mello Freire do cartório que saudava com rima a visita de Eny, prima de minha mãe: “Menina bonita de Cachoeira Paulista”.

Por dia saiam umas 15 marmitas. Quem entregava era o filho do “Geraldo sapateiro”, garoto bonzinho mas que vez ou outra tirava uma lasquinha dos bifes dos clientes.
O estabelecimento tinha também pensionistas residentes. Havia o professor Sinibaldi do SENAI, o João do Banco São Paulo, o Robertinho da gráfica e o Arnaldo que se casou com a Pérola.
O casarão, erguido com tijolos de barro, data dos anos 20. Desde sempre chamou a atenção com suas colunas neoclássicas, a escadaria de mármore branco (quanto sapólio para limpar !) e os recuos laterais e de frente. A porta tinha acabamento superior com “vidros de igreja”, como Eny descreve os vidros coloridos. Os janelões tinham vidros grossos, daqueles que se passava jornal para brilhar. Seriam franceses.
Entrando, havia um quarto para cada lado, separados por um corredorzinho de labrilho hidráulico. Depois vinha a sala grande com paredes decoradas. Ela tinha um piso de largas e grossas tábuas de madeira. De tanto se esforçar para, ajoelhada, lustrar aquele chão com cera de pasta, minha mãe certa vez adoeceu.
Cruzando a sala, um corredor de piso de madeira levava a mais quatro quartos. Ai vinha a sala de refeições dos pensionistas, depois a copa onde a família comia e a cozinha de piso cimentado. “O fogão era uma beleza, com oito ou dez bocas, de tijolo, com uma chapa de ferro bonita”, contava mamãe. Mais aos fundos ficavam o único banheiro, uma dispensa e um quartinho. No quintal, um ranchinho.

Li no jornal que a construção, coberta por telhas de barro, tem 195 metros quadrados e o terreno 511. Já foi maior. Na lateral, onde hoje tem a sede do PR (antiga casa do prefeito Valdemar), havia um pomar com vistosas árvores. Ele era protegido da rua por um muro com grades de ferro fundido, “inglesas”, assim como a frente da casa, com belas palmeiras e um jardim de hortências. Todo espaço externo era o reino do Ceará, nosso cachorro. No final dos anos 50, o paredão do lado direito do casarão servia de tela para projeção noturna ao ar livre, recorda meu irmão Valter. Coisa comum na época. Um Cinema Paradiso mogiano…

O nascimento de meu irmão Valter mexeu com a rotina do lugar. O parto, foi demorado. Assustou Zé Carlos, meu irmão mais velho, que chorava muito. “Leva essa criança para fora !”, gritou a certa altura, para meu pai, a “madrinha” Cecília.
Na hora, os pensionistas escutavam pela Rádio Nacional a radionovela “O Direito de Nascer”, fenômeno de audiência que inspirou uma novela da TV Tupi. Quando eles ouviram o choro do recém chegado, aplaudiram bravamente.
Em 2010, antes da Prefeitura desapropriar o casarão, minha mãe sonhava voltar a “entrar nela” antes que a derrubassem. O imóvel já estava em péssimo estado de conservação. Hoje, o casarão luta pelo direito de sobreviver.
Texto de Júlio Moreno
PS: após a desapropriação pela Prefeitura e muita burocracia, o casarão começou a ser restaurado em 2016 com recursos do Fundo Estadual de Defesa dos Interesses Difusos (FID), da Secretaria da Justiça e Cidadania, e hoje abriga o Arquivo Histórico Isaac Grinberg (homenagem a importante historiador da cidade) e o Museu Virtual da Educação João Cardoso de Siqueira Primo (que construiu o casarão para morar com a família e dedicou mais de 30 anos ao magistério).
Links relacionados:
Casarão ajuda a contar a história de Mogi das Cruzes (G1, 02/11/2018)
Livro conta a história do casarão histórico de Mogi das Cruzes (G1, 19/10/2019)
Restauro do casarão histórico de Mogi é concluído (Portal do Governo do Estado de São Paulo, 04/07/2020)
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