A querida de todos

Crônica publicada em “O Diário”, de Mogi das Cruzes, em 19 de maio de 2010

A reunião de março da “Turma das 12”,  grupo de senhoras de tradicionais famílias mogianas, foi anfitrionada por Ditinha Martins, no Fran´s Café.

Com uma maquiagem suave, reveladora da  vaidade com que tratava da pele, cabelo arrumadinho, vestido vermelho, a inseparável bolsinha preta a tira-colo, ela organizou uma tarde descontraída, como registrou Silene da Cunha Pinto.

Nas próximas reuniões do grupo, Ditinha não fará mais companhia a Cida, Dirce, Dolores, Dora, Geny, Glória, Iracema, Irene, Lina, Marina e Neid. Mas certamente para a “Turma das 12”, superada a tristeza inicial, o mais forte será a recordação de uma pessoa das mais queridas da cidade.

E é assim que dona Ditinha gostaria de ser lembrada por familiares e amigos. Não dá para imaginar diferente de alguém tão “para cima”, como se diz das pessoas como ela que têm um estado de espírito impar, de animação nos momentos de alegria e de conforto fraterno e positivo nos momentos adversos.

Ativa, até os últimos dias de sua vida dirigia seu carro com a mesma disposição dos tempos em que, nos anos 1960, rodava com um Gordini para levar e buscar na escola Ana Carmen, Sonia Regina e Nilinho, filhos que teve com seo Nilo.  Gostava muito também de levar filhos e amiguinhos para Bertioga.  

Ana Carmen, dona Ditinha, Nilinho e Sonia Regina (2004)

Na época morava numa rua curta de Santana, onde ainda residem seus estimados amigos doutor Duílio e dona Glória. Eram outros tempos, em que ela podia deixar as portas da casa abertas, permitia às filhas namorarem no portão (dando umas espiadinhas vez ou outra) e tinha que controlar o agito do caçula.

O que o Nilinho mexia com a rotina da casa, batendo aqui e ali uma bola de basquete, era mesmo coisa para tirar a paciência de qualquer um. Até a dela, quando a bola ameaçava os vasos da sala e ele respondia, ousado, que um dia ela teria orgulho de vê-lo na Seleção. E não é que ele foi mesmo, sendo um dos astros do time que ganhou a medalha de prata nos Panamericanos de 1983 e disputou as Olimpíadas de 1984 ?

Numa das visitas do filho à UTI do hospital onde ela foi operada do coração, Ditinha chamou a enfermeira e disse com alegria:  “Vou fazer um merchanding. Esse meu filho jogou na Seleção Brasileira de Basquete”.

Não menos orgulho tinha de Ana Carmen e Sônia Regina, a quem tanto ajudou na formação superior, na constituição de famílias, cuidado com os filhos e com a casa, conselhos afetivos, juízo com dinheiro e naturalmente  manutenção da beleza.

Seu amor e simpatia no trato eram reconhecidos desde os tempos de solteira telefonista. As pizzinhas e outras comidinhas renderam-se fama de boa quituteira. Suas brincadeiras nas festas natalinas eram uma delicia, assim como as piadinhas inocentes que contava. No último Natal deu aos familiares enormes sacos cheios de papel higiênico, retalhos e maços de notas de R$ 1 misturados com o presente real. Nos primeiros anos de vida com o fino e saudoso doutor Jair, ela buscava para ele os ovos de galinha caipira que a vizinha Lurdinha criava no quintal.

Sempre se desculpando quando imaginava dar trabalho, não sei de caso em que dona Ditinha tenha decepcionado alguém.  Expressava opiniões sem imposição. Atuou em  instituições assistenciais de Mogi.

Tinha costume de guardar em álbuns recortes selecionados de jornal. registrando as datas com sua letrinha. Faltará este, escrito com lágrimas.    

Júlio Moreno

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