Bom dia, dona Lydia !

Crônica publicada em “O Diário”, de Mogi das Cruzes, em 26 de setembro de 2010.

Como foi sua noite ? Dormiu bem ? Eu sei que nem sempre isto tem sido possível, mas espero que  a senhora hoje tenha acordado disposta. E o seo Mário, como vai ? “Firme na paçoca”, como ele costuma dizer ?

Fico muito honrado em saber que a senhora toda quarta-feira não perde a leitura dessa coluna. Para mim, é uma continuidade do fraterno convívio dos tempos em que meu pai tinha uma camisaria vizinha à Farmácia Santa Therezinha do Menino Jesus, na rua dr. Deodato.

(Para quem não sabe, trata-se da farmácia mais antiga de Mogi. Foi criada em 1930 pelo dr. Acácio Cruz, de quem Mario Stigliani depois se tornaria sócio.  Ele chegou em 1947, aos 21 anos de idade, recém formado em prático de farmácia. Aposentou-se só em 1997. Mário e Lydia são de Capivari. Conheceram-se crianças, reencontraram-se jovens, trocaram cartas de amor – ele aqui, ela lá – e casaram-se em 1950).

Sei que a Maria Conceição se aposentou e agora pode ficar mais ao seu lado. Seu nascimento foi um acontecimento, não ? Ela veio prematura, em casa mesmo, com ajuda da dona Lula, que por sinal também foi minha parteira. De tão pequenina, seu primeiro berço foi uma caixa de sapatos forrada de algodão, que na farmácia tinha muito.

Depois nasceria minha irmã Lúcia Helena, a quem a senhora crismou e ajudou a dar o primeiro banho numa bacia. Foi outro acontecimento, não ? Tá lembrada que seu anel de ouro com pedra de rubi escorregou e quase foi embora quando se despejou a água no vaso sanitário ?  Ainda bem que não se deu a descarga antes.       

Como a Santa Therezinha era importante para a cidade ! Por muito tempo seo Mário foi o único que saia de madrugada para aplicar injeções a domicílio. Lá de casa dava para ouvir quando tocavam a campainha da janelinha na lateral da Cantina Mogiana para chamá-lo. Também não havia outra farmácia que aviasse receita com manipulação.

Dona Lydia e a comadre Geralda de Oliveira Moreno, minha mãe, durante raro passeio em São Paulo

Não sei se a senhora sabe, mas eu curtia muito entrar no laboratório e ver aqueles potes brancos, copos e graus sobre o tampo de mármore do balcão escuro onde ele  preparava as poções. Achava engraçado o ”jacaré” de ferro usado para colocar rolhas nos vidros dos remédios.

(A Santa Therezinha, hoje na rua Cel. Souza Franco, trabalha basicamente com  manipulações. Seu dono agora é o Alvaro Nakamura, que tem como braço direito a filha Priscila, farmacêutica formada. Ele começou ali menino, como entregador).  

“Seo Mário” na farmácia, sempre sorridente

Lembro da senhora  dando injeções nas mulheres, servindo no balcão… Sei de sua gratidão pela ajuda que lhe deu sua irmã Therezinha nos primeiros cuidados com a Maria. Mais tarde,  veio outra irmã, a caçula  Zilda, que tinha a mesma idade da sobrinha, de quem foi grande companheira de brincadeiras, junto com minha irmã.

Devo confessar que me assustava um pouco sua germânica severidade, mas me tranqüilizava saber que, nas horas de folga, a senhora fazia caprichosos tricôs e crochês. Seu gosto pela música certamente influenciou Maria a aprender acordeon e agora cantar com alegria  no coral 1º.de Setembro do maestro Niquinho.

Domingo encontrei seo Mário rumo ao Nenê Massas. Ele, que gostava de pescar, me contou que trocou de diversão. Com seus dotes de manipulador, agora faz doces. Qual é o seu preferido, dona Lydia ? O de abóbora, o de figo ? Peço a ele a gentileza de hoje lhe servir um creme holandês, para acompanhar o beijo que lhe envio impresso no jornal. Força para todos vocês ! Com carinho, Júlio

Júlio Moreno

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