Visita à “casinha num círculo de flores” de Chang Dai-Chien em Carmel

Crônica publicada na coluna de Chico Ornellas, em “O Diário”, de Mogi das Cruzes, em 29/06/1997, e complementada com fotos e vídeos em 2024

Caro Chico:

São quase dez da noite de sábado em San Francisco. Mina esposa Lenita e eu acabamos de retornar ao hotel depois de um fantástico dia em Pebble Beach, a duas horas e meia de carro daqui. Eu disse fantástico?  Deveria ter dito místico, uma vez que, por algumas horas, pudemos penetrar no mundo mágico do mestre Chang Dai-Chien, que nos anos 70 viveu parte do tempo aqui e outra parte em Mogi,  em meio a viagens pelo mundo todo.

Naquela época, mais curiosos com sua excentricidade do que com suas habilidades artísticas, convivíamos, sem dar lá muita bola, com “um dos mais conhecidos e prestigiados artistas chineses do século XX”, como informa hoje a Wikipédia, a enciclopédia aberta da Internet. Além da pintura, ganhou fama como caligrafo e poeta.

No ocidente Chang foi apelidado de “Picasso chinês” e, por sinal, esteve com o pintor espanhol em 1956 em Cannes. Na foto, ele aparece no lado de fora da Grosvenor Gallery em Londres em 10 de agosto de 1965. Fonte: @ changdaichienart

Voltando ao nosso passeio a Carmel… Pebble Beach quer dizer algo como “praia dos seixos”. Morse, o inventor do telégrafo, foi quem deu início a essa comunidade, hoje um refinado e tranqüilo condomínio às margens do Pacífico, famoso  pelo torneio de golfe internacional AT&T que sedia todo ano. Fica  ao lado da não menos famosa Carmel do Clint Eastwood. Quando Chang chegou aqui, Carmel era menos badalada, apenas uma cidade com  algumas galerias de arte e muitos “hippies”, que logo se encantaram com aquele “monge” chinês que vez ou outra ia conversar longamente com eles, em especial sobre religião, na pracinha principal. Hoje, Carmel é um local de lojas de grife e restaurantes sofisticados.

Pebble Beach continua mais reservada, dando-se ao luxo até de  cobrar um “pedágio” de quem não mora por ali e deseja usufruir de  suas atrações naturais. Entre elas, o “cipreste solitário” e as “árvores fantasmas” (troncos queimados por raios), fatores  decisivos para Chang fixar residência em 1971 numa imensa casa de madeira na Majela Road, 1040.

“Papai não se interessa muito pela casa, mas sim pela natureza ao redor conta-me Johnson (Hsin Chien Chang), 56 anos, um dos 16 filhos que o “mestre” teve em seus quatro casamentos. Ele se  refere ao “mestre” sempre no presente, como se o pintor ainda  existisse. Casado com a mineira Vânia, Johnson tem dois filhos norte-americanos, vivendo aqui desde aquela época. O que não o fez  esquecer, contudo, sua infância em Mogi.

Sing Yee Chang (“Paulo”), Vânia e Hsin Chien Chang (“Johnson”)

Outro irmão, dez anos mais velho, o Paulo (Sing Yee Chang),  também nos acompanha na visita à casa, onde hoje reside Wen Pu Hsu, a única das viúvas do pintor ainda viva, atualmente com 70  anos de idade. Paulo herdou do pai o dom da pintura, mas se confessa preguiçoso para seguir carreira.

Ele também é quem sabe  explicar bem o significado de algumas obras do pai ou daquelas  inscrições em chinês numa tábua acima da porta: Huan Pi An. Quer  dizer, conta ele, “casinha num círculo de flores”. Além da pintura, Chang Dai-Chien ganhou fama como caligrafo e poeta.

O círculo não é obra apenas da natureza, mas também do artista, que teve a idéia de criar aquele jardim da frente da casa, onde se misturam pedras enormes  (levadas ali por guindastes) com pés de ameixas e troncos de  “redwood” mortas. Uma pequena amostra do jardim interno, que o  pintor fez os filhos construírem com as próprias mãos sobre um  chão de areia pura.

Water and sky gazing after rain in splasched color (” Água e céu contemplados depois da chuva em cores salpicadas”). Medidas: 192.3 cm. por 75 . Pintura avaliada hoje pela Sotheby’s entre 1,200,000 e 1,800,000 USD.

Plantas japonesas, pedras, muitas pedras, bambu, uma cachoeira hoje seca, um pequeno pagode e muitos caminhos entre folhagens,  para que o lugar aparentasse ser maior do que de fato é.

Havia  ainda muitos “bonsai”, levados por Chang para Taiwan em 1977,  quando se mudou para Taipei, onde morreria em 1983, com quase 84  anos. A casa de lá hoje é um museu nacional. E mesmo na China continental, apesar da aversão de Chang ao comunismo, o “mestre” é  reverenciado em um memorial em sua cidade natal, Neikiang  (província de Szechwan), como contam os filhos, enquanto a emoção vai tomando conta de Lenita e de mim.

A inscrição daquela pedra de granito, diz Paulo chamando a  nossa atenção para uma das preciosidades do jardim, quer dizer  “túmulo dos pincéis”. “É uma homenagem que papai prestou aos pincéis que usou para fazer seus quadros, todos enterrados ali. A pedra veio da China continental e, no lado posterior, tem ainda uma  poesia escrita por ele. Todas as obras que fez são assinadas e contém pelo menos um verso, complementa Johnson, nos abrindo as portas do estúdio, ao lado do jardim.

Numa parede, os pincéis; sobre uma enorme mesa, os potes onde o “mestre” fazia a mistura de suas tintas (todas a base de minerais moídos); em todo o canto pedras, inclusive de Salto do  Pirapora, repousando sobre pedestais de madeira feitos em Hong Kong, sob medida, para cada uma. Há também muitas fotos de Chang Dai-Chien com sua longa barba branca, a careca lustrosa e um  cajado. Só falta a companhia do “gibão” que ele carregava sempre para cima e para baixo quando, em Mogi, onde chegou em meados dos  anos 50,  depois de breve passagem pela Argentina, fugindo do  comunismo da China.

O artista e o gibão com o qual passeava pelas ruas de Mogi

O sítio do distrito de Taiaçupeba,  recorda Johnson,  tinha também  um jardim precioso, mas muito maior. Tudo foi coberto pelas águas da represa do rio Jundiaí, menos uma pedra com inscrições que meu pai conseguiu preservar. A água também cobriu os 1700 pés de caqui em cuja homenagem meu pai deu ao lugar o nome de “jardim das oito virtudes”, para celebrar a beleza e a utilidade da fruta e de sua folhagem.

Já longe da casa, nossa conversa se estendeu ainda por muitas horas mais, trazendo muita alegria para todos, mesmo quando os irmãos recordavam o rigor do pai, que não admitia erros e conduziu a vida dos filhos até morrer. Rimos muito ao saber que, garotinho, Johnson fazia xixi nas tigelas de tinta do “mestre”…

Na despedida , Chico, eu não falei, mas deveria ter falado: de todos os lugares onde Chang Dai-Chien ( morou, Mogi foi o único que ainda não o reverenciou com uma devida homenagem. Ainda há tempo de as autoridades cuidarem disso. Ou será que resta apenas sua página dominical, em nosso querido Diário, para cuidar de nossa memória e, em especial, nesse caso, de nossa sensibilidade?

Um forte abraço,

Júlio Moreno

San Francisco, 17/05/1997

PS:

Até 2024, o poder público de Mogi das Cruzes não tinha feito nenhuma homenagem oficial a Chang Dai-Chien, mas em 14 de outubro de 2023, por conta própria o artista plástico e ativista Fabiano Spike instalou uma estátua de concreto de quatro metros na última ilha do Jardim das Oito Virtudes.

Fonte: @ changdaichienart

Vídeos relacionados:

Zhang Daqian (Chang Daichien ) Pouring Ink Landscape. Documentário publicado em 09/08/2018.

Fonte: Instituto CPFL, publicado em 30/09/2021

“OF COLOR AND INK” (Da cor e da Tinta), documentário digirido por Weimin Zhang (@weimin_film), traça as pegadas do exílio de Chang Dai-Chien. Vídeo publicado em 02/07/2022

Zhang Daqian (Chang Daichien ) Pouring Ink Landscape. Documentário publicado em 09/08/2018.

Reportagem da Rádio Internacional da China (CRI, na sigla em inglês) publicada em 11/05/2023

Links relacionados:

Wikipedia (recomendo referências e outros links): Chang Dai-Chien

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