O arquiteto e urbanista Franciscus

Artigo publicado no portal do Estadão (23/04/2025) e no portal do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (25/04/2025)

A presidência brasileira da COP30, a Conferência do Clima das Nações Unidas, divulgou mensagem em que destaca o papel do papa Francisco na discussão de uma nova agenda ambiental global, nos início de seu pontificado. A “Encíclica Laudato Si”, em defesa de uma “ecologia integral’, dada a público na Solenidade de Pentecostes em 24 de maio 2015, poucos meses antes da realização da COP21, influenciou redação dos objetivos do histórico Acordo de Paris para combater o aquecimento global, visando proteger “casa comum” de todos nós, a Terra.

“Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental” e demanda “abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza”

Neste artigo, meu objetivo é focar especialmente nos trechos da Carta Encíclica em que o falecido papa fala sobre os perigos que rondam nossos aglomerados urbanos, “por exemplo, a subida do nível do mar pode criar situações de extrema gravidade, se se considera que um quarto da população mundial vive à beira-mar ou muito perto dele, e a maior parte das megacidades estão situadas em áreas costeiras”.

Vista do papa Francisco à favela do complexo de Manguinhos, no Rio de Janeiro, em 2013


Franciscus discorre nos parágrafos iniciais do documento pontifício sobre a poluição e as mudanças climáticas, a questão da água, a perda da biodiversidade, a deterioração da qualidade de vida humana e a degradação social, a desigualdade planetária e a fraqueza das reações.


Os trechos selecionados bem podem ser lidos como uma lição de um professor de Arquitetura para seus alunos ou, melhor até, para jovens idealistas que pretendem ingressar na política, com a ressalva – como fez o falecido papa – de que a solução depende de uma abordagem multidisciplinar, de boas políticas públicas e do envolvimento do crescente número de associações comunitárias.

“O reconhecimento da dignidade peculiar do ser humano contrasta frequentemente com a vida caótica que têm de fazer as pessoas nas nossas cidades”, diz ele.


“Nota-se hoje, por exemplo, o crescimento desmedido e descontrolado de muitas cidades que se tornaram pouco saudáveis para viver, devido não só à poluição proveniente de emissões tóxicas mas também ao caos urbano, aos problemas de transporte e à poluição visual e acústica. Muitas cidades são grandes estruturas que não funcionam, gastando energia e água em excesso. Há bairros que, embora construídos recentemente, apresentam-se congestionados e desordenados, sem espaços verdes suficientes. Não é conveniente para os habitantes deste planeta viver cada vez mais submersos de cimento, asfalto, vidro e metais, privados do contacto físico com a natureza”.


“Em alguns lugares, rurais e urbanos, a privatização dos espaços tornou difícil o acesso dos cidadãos a áreas de especial beleza; noutros, criaram-se áreas residenciais «ecológicas» postas à disposição só de poucos, procurando-se evitar a entrada de outros para perturbar uma tranquilidade artificial. Muitas vezes encontra-se uma cidade bela e cheia de espaços verdes e bem cuidados nalgumas áreas «seguras», mas não em áreas menos visíveis, onde vivem os descartados da sociedade”.


Para Franciscus, são alguns sinais, entre outros, que mostram como o crescimento nos últimos dois séculos não significou, em todos os seus aspectos, um verdadeiro progresso integral e uma melhoria da qualidade de vida. Crescem os efeitos laborais de algumas inovações tecnológicas, a exclusão social, a fragmentação social, o aumento da violência e o aparecimento de novas formas de agressividade social, o narcotráfico e o consumo crescente de drogas entre os mais jovens e a perda de identidade.

Somam-se a isto as dinâmicas da mídia de massa e do mundo digital, que, “quando se tornam onipotentes, não favorecem o desenvolvimento de uma capacidade de viver com sabedoria, pensar com profundidade e amar com generosidade”, ao contrário, podem resultar em “uma profunda e melancólica insatisfação nas relações interpessoais ou um nocivo isolamento”.


A Carta Encíclica – que tem 184 páginas – assinala que muitas vezes falta uma consciência clara dos problemas que afetam particularmente os excluídos. Estes são a maioria do planeta, milhares de milhões de pessoas, sempre mencionados nos debates políticos e econômicos internacionais, mas frequentemente deixados de lado na implementação de ações governamentais.

“Isto deve-se, em parte, ao fato de que muitos profissionais, formadores de opinião, meios de comunicação e centros de poder estão localizados longe deles, em áreas urbanas isoladas, sem ter contato direto com os seus problemas. Vivem e refletem a partir da comodidade de um desenvolvimento e de uma qualidade de vida que não está ao alcance da maioria da população mundial”. Mas, diz o falecido papa, “não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres”.


Franciscus não deixou de reconhecer que aos poucos a humanidade tem dado sinais de consciência de que caminhos fundamentais para um futuro feliz são outros. Apesar disso, as pessoas também não se imaginam renunciando às possibilidades que oferece a tecnologia e parar para recuperar a profundidade da vida.

“Se a arquitetura reflete o espírito de uma época, as mega-estruturas e as casas em série expressam o espírito da técnica globalizada, onde a permanente novidade dos produtos se une a um tédio enfadonho. Não nos resignemos a isto nem renunciemos a perguntar-nos pelos fins e o sentido de tudo”, diz a Carta, ressaltando que “ninguém quer o regresso à Idade da Pedra, mas é indispensável abrandar a marcha para olhar a realidade de outra forma, recolher os avanços positivos e sustentáveis e ao mesmo tempo recuperar os valores e os grandes objetivos arrasados por um desenfreamento megalómano”.


A “Encíclica Laudato Si” lança uma luz especial sobre um património histórico, artístico e cultural, igualmente ameaçado a par do patrimônio natural:

Não se trata de destruir e criar novas cidades hipoteticamente mais ecológicas, onde nem sempre resulta desejável viver. É preciso integrar a história, a cultura e a arquitetura de um lugar, salvaguardando a sua identidade original. Por isso, a ecologia envolve também o cuidado das riquezas culturais da humanidade, no seu sentido mais amplo. Mais diretamente, pede que se preste atenção às culturas locais, quando se analisam questões relacionadas com o meio ambiente, fazendo dialogar a linguagem técnico-científica com a linguagem popular. É a cultura – entendida não só como os monumentos do passado, mas especialmente no seu sentido vivo, dinâmico e participativo – que não se pode excluir na hora de repensar a relação do ser humano com o meio ambiente”.


A falta de habitação é apontada como grave em muitas partes do mundo, principalmente porque os orçamentos estatais em geral cobrem apenas uma pequena parte da demanda.

“E não só os pobres, mas uma grande parte da sociedade encontra sérias dificuldades para ter uma casa própria. A propriedade da casa tem muita importância para a dignidade das pessoas e o desenvolvimento das famílias. Trata-se duma questão central da ecologia humana. Se em um lugar concreto já se desenvolveram aglomerados caóticos de casas precárias, é preciso prioritariamente urbanizar estes bairros, não erradicar e expulsar os habitantes. Mas, quando os pobres vivem em subúrbios poluídos ou aglomerados perigosos, no caso de ter de se proceder à sua remoção, para não acrescentar mais sofrimento ao que já padecem, é necessário fornecer-lhes uma adequada e prévia informação, oferecer-lhes alternativas de alojamentos dignos e envolver diretamente os interessados».

Ao mesmo tempo, a criatividade deveria levar à integração dos bairros precários numa cidade acolhedora: «Como são belas as cidades que superam a desconfiança doentia e integram os que são diferentes, fazendo desta integração um novo fator de progresso! Como são encantadoras as cidades que, já no seu projeto arquitetônico, estão cheias de espaços que unem, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro”.


“Nas cidades, a qualidade de vida está largamente relacionada com os transportes, que muitas vezes são causa de grandes tribulações para os habitantes. Nelas, circulam muitos carros utilizados por uma ou duas pessoas, pelo que o tráfico torna-se intenso, eleva-se o nível de poluição, consomem-se enormes quantidades de energia não-renovável e torna-se necessário a construção de mais estradas e parques de estacionamento que prejudicam o tecido urbano. Muitos especialistas estão de acordo sobre a necessidade de dar prioridade ao transporte público. Mas é difícil que algumas medidas consideradas necessárias sejam pacificamente acolhidas pela sociedade, sem uma melhoria substancial do referido transporte, que, em muitas cidades, comporta um tratamento indigno das pessoas devido à superlotação, ao desconforto, ou à reduzida frequência dos serviços e à insegurança”.


O documento pontifício alerta que “se o Estado não cumpre o seu papel numa região, alguns grupos económicos podem-se apresentar como benfeitores e apropriar-se do poder real, sentindo-se autorizados a não observar certas normas até se chegar às diferentes formas de criminalidade organizada, tráfico de pessoas, narcotráfico e violência muito difícil de erradicar. Se a política não é capaz de romper uma lógica perversa e perde-se também em discursos inconsistentes, continuaremos sem enfrentar os grandes problemas da humanidade. Uma estratégia de mudança real exige repensar a totalidade dos processos, pois não basta incluir considerações ecológicas superficiais enquanto não se puser em discussão a lógica subjacente à cultura atual. Uma política sã deveria ser capaz de assumir este desafio”.


Desde a Carta, o ambientalismo ganhou força dentro da Igreja Católica, como se constatou no Sínodo da Amazônia em 2019. O Vaticano promoveu em 2023 a Semana Laudato Si, com o tema: “Esperança para a Terra. Esperança para a Humanidade”, e na festa de São Francisco, dia 4 de outubro, o papa divulgou a “Laudate Deum”, exortação apostólica continuidade da Encíclica. O tema foi retomado na Campanha da Fraternidade 2025, onde Franciscus faz menção à realização em Belém, em novembro, da COP30.


LINKS DAS PUBLICAÇÕES:

Estadão (* Blog de Fausto Macedo)

CAU/BR


ÍNTEGRA DOS DOCUMENTOS PAPAIS:

“Carta Encíclica Laudato Si”

“Exortação Apostólica Laudate Deum”

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